Levantamento Epidemiológico em Saúde Bucal

Utilizando Ferramentas Móveis

José Remo Ferreira Brega¹, José Roberto Pereira Lauris²
Pedro Rogério Cavalca Moreira³, Renan Claro Pereira³

¹,3Laboratório de Sistemas de Tempo Real (Lsister),
²Departamento de Saúde Coletiva (FOB-USP)



Resumo - Os PDAs (Personal Digital Assistant), com sua capacidade atual e sua mobilidade, têm sido empregados como facilitadores de entrada de informações em sistemas computacionais. Uma das áreas que poderiam ser otimizadas com aplicações para dispositivos móveis é a utilização destes em levantamentos epidemiológicos em saúde bucal. O PDA substitui com qualidade a ficha padronizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em que é possível registrar esses levantamentos, observados pelo dentista, para seu posterior acesso através de Web Services ou transferência TCP/IP por um microcomputador (desktop), o que se dá por meio de uma solução open-source para processamento desses dados em informações estatísticas.

Palavras-chave: Saúde Bucal, levantamento, epidemiológico, PDA, OMS, OPAS, aplicações móveis, portáteis, odontológico

Abstracts – The PDAs (Personal Digital Assistant), with its current capacity and their mobility, have been employed as facilitators of entry of information in computer systems. One area that could be optimized with the use of applications to mobile devices is in epidemiological surveys on oral health. The PDA replacing quality with a sheet standardized by the WHO (World Health Organization), in which is possible to record these surveys, seen by the dentist for their subsequent access through Web Services or transfer TCP/IP by a microcomputer (desktop), which occurs through an open-source solution for processing these data in statistical information.

Keywords: Oral Health, Survey, Epidemiological, PDA, WHO, PAHO, mobile applications, portables, dental


Introdução

A saúde bucal é um importante aspecto da saúde das pessoas e de seu bem estar. Boa saúde bucal significa melhor convivência social, comunicabilidade, melhores condições de mastigação, que proporcionam prazer na degustação de diversos tipos de alimentos, autoconfiança social, ou seja, qualidade de vida. A maioria dos problemas bucais é passível de prevenção através de métodos há muito investigados. Quando a saúde bucal está comprometida, o sofrimento ocasionado pelas doenças bucais ocorre em diversos setores da vida. Dor, desconforto, noites mal dormidas causadas por diversas patologias bucais, tais como a cárie dentária, a doença periodontal, as erosões dentárias, a fluorose dentária ou o câncer bucal, comprometem a saúde e afetam inclusive a freqüência às atividades escolares e laborativas, ou seja, a qualidade de vida fica comprometida ocasionando muitas despesas para a sociedade e para o indivíduo isoladamente. 1
Por isso, realizar um levantamento epidemiológico em saúde bucal é de grande importância, já que conhecendo a estatística envolvida nele, é possível fazer um melhor planejamento das necessidades odontológicas de um bairro, cidade, estado e até mesmo de um país.
“Os levantamentos básicos de saúde bucal fornecem uma base importante para a estimação do estado atual da saúde bucal de uma população e suas necessidades futuras de cuidados de saúde bucal. Eles produzem dados básicos confiáveis para o desenvolvimento de programas nacionais ou regionais de saúde bucal e para o planejamento do número e do tipo apropriado de pessoal.” 2
Na odontologia, principalmente nos levantamentos epidemiológicos, utilizam-se muito os indicadores de saúde bucal definidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde), cujos principais são: CPOD, ceo, IPC, Perda de inserção, Fluorose dentária, Condição da mucosa bucal, Condições e necessidades protéticas, Oclusão entre outros.
A maioria dos estudos epidemiológicos que utilizam este padrão é feita em um grande número de indivíduos. Neste padrão, os dados são coletados de forma manual, com um cirurgião-dentista na posição de examinador, fazendo o exame clínico, e um anotador fazendo as anotações manualmente em uma cópia da ficha (ANEXO 1) para cada sujeito.
Devido ao grande número de campos e códigos a serem preenchidos, o preenchimento da ficha freqüentemente leva a erros, como, por exemplo, a inserção de um código inexistente para aquele campo ou a inserção de um código existente, porém incompatível com o campo. Por exemplo, coloca-se no código da coroa do dente como dente ausente (P.ex. código 4) e ao se preencher o campo de necessidade de tratamento coloca-se que o dente tem necessidade de restauração (P.ex. código 2). Quando as fichas forem processadas, fica impossível de corrigir tais erros pois somente com novo acesso ao examinado seria possível saber qual a informação correta.
O primeiro levantamento epidemiológico em saúde bucal realizado no Brasil foi em 1986, em que foi utilizada certa parte da metodologia recomendada pela 2ª edição do “Oral Health Survey: Basic Methods”, porém a utilização da metodologia neste estudo não seguiu uma normatização básica oficial e única 3. O segundo levantamento realizado em escala nacional foi em 1996, uma década depois, em que também foi utilizado a metodologia indicada no “Oral Health...” de 1987. Apesar de importantes, as informações obtidas são muito limitadas e complexas, o que dificulta a leitura dos dados por quem não tem algum conhecimento básico. Deve-se fazer um grande esforço para obter uma simples tabela de CPO-D e seus componentes em função da idade, e não é possível recuperar dados de dispersão, como desvio-padrão, ou observar a distribuição das variáveis. Assim, mostra-se necessária a elaboração de uma metodologia uniforme e construção de uma base de dados pública, constante e confiável. 4
A evolução tecnológica na área da informática tem produzido cada vez mais equipamentos de processamento de dados de alta qualidade, capacidade, confiabilidade, baixo custo e tamanho reduzido. Isto tem difundido a utilização de computadores nas mais variadas áreas e atividades. Neste conjunto de áreas se inclui a biologia, em que tanto equipamentos genéricos como específicos têm sua aplicação no dia a dia em atividades de gerenciamento administrativo, exames complementares, diagnóstico entre outros. Hoje já é possível ter um computador com todas as funções básicas de um PC (Personal Computer) desktop, mas que caiba na palma da mão - são os chamados Palmtop, Handheld ou PDAs (Personal Digital Assistant).
Devido à praticidade de uso, mobilidade e relativo baixo custo, esse tipo de recurso vem sendo utilizado cada vez mais em todas as áreas do conhecimento; um exemplo disso é a vasta aplicação desses aparelhos em instituições onde é necessária a captação de dados externos, como em pesquisas de campo. Outro ramo de utilização refere-se à certificação digital de imagens médicas, um exemplo de aplicação na área médica.
“Mobilidade significa que as pessoas estão usando dispositivos portáteis e funcionalmente poderosos. Esses dispositivos permitem que os usuários realizem um conjunto de funções de aplicação quando desconectados e que também sejam capazes de se conectar para recuperar dados e fornecê-los a outros usuários, aplicações e sistemas.” 5.
Os PDAs já são usados em várias áreas da biologia. Tendo em vista suas vantagens e a grande utilização da ficha padrão da OMS na área de epidemiologia odontológica, pretende-se com a presente pesquisa implementar um software para sistemas embarcados que permita a coleta de dados no padrão da OMS, agilizando o processo do levantamento e garantindo uma maior confiabilidade dos dados.
Este projeto de pesquisa faz parte do projeto financiado pelo CNPq nº 485859/2006-0 sob o título de “Sistema Automatizado para Coleta de Dados de Levantamento Epidemiológico em Saúde Bucal”.
Este projeto também é financiado pelo PIBIC sob o título de “Sistema Automatizado para Levantamento Epidemiológico em Saúde Bucal”.

!!Metodologia

O fato da ficha padrão OMS ser impressa dificulta em muito o processamento dos dados obtidos, pois para tanto se deve primeiro digitalizá-los, tornando esta uma atividade redundante e sujeita a erros, já que os dados são inseridos duas vezes. Após serem digitalizados, os dados são analisados com a ajuda de softwares estatísticos, softwares estes que, por sua vez, nem sempre trazem resultados satisfatórios, por exigirem um conhecimento aprofundado de como utilizar estas ferramentas. O processo atual pode ser observado na Figura 1.


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Figura 1 – Processo Atual

Unindo a idéia de mobilidade e praticidade que os PDAs trazem, como a de digitalizar documentos, esse projeto visa substituir a ficha padrão da OMS por um software que colete os dados no padrão da organização. Aplicações móveis melhoram a eficiência do fluxo do trabalho e a produtividade, já que reduzem a quantidade de tarefas repetitivas, uma das vantagens trazidas por esta tecnologia 5.
Levando em consideração o baixo desempenho desse tipo de tecnologia em tarefas que exijam grande esforço de processamento, nossa proposta é a implantação, em conjunto com o software embarcado, de uma solução open-source (código aberto), viabilizando assim uma fácil customização e aprimoramento da aplicação de acordo com as necessidades do usuário para microcomputadores desktop. Essa proposta é direcionada ao tratamento dos dados do levantamento odontológico, transformando-os em informações estatísticas e otimizando seu processamento de modo a garantir uma maior confiabilidade e agilidade de seus resultados.
As estruturas de dados para envio e recebimento de dados foram padronizadas com técnicas de modelagem de objetos de negócio na linguagem XML (Extensible Markup Language). A utilização de XML garante uma maior interoperabilidade para o sistema, podendo migrar facilmente os registros para qualquer base de dados, apenas seguindo seus XML Schemas propostos. 6
O novo formato do processo pode ser observado na Figura 2.


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Figura 2 – Novo Processo Proposto

A realização do trabalho foi dividida nas seguintes partes:
• Inicialmente, estudamos a planilha de levantamento da OMS, e suas alternativas de programação;
• Elaboramos as Estruturas de Dados e os Schemas XML para o armazenamento dos mesmos;
• Estudamos o ambiente de aplicação da solução, identificando quem são os usuários e suas necessidades;
• Desenvolvemos o software do PDA para captação dos dados do levantamento;
• Desenvolvemos os métodos de transferência dos dados do PDA para o microcomputador desktop;
• Desenvolver aplicação para transformação dos dados em informações estatísticas
• Aplicar usabilidade para facilitar a utilização do software por um cirurgião-dentista e/ou anotador;
Todas as aplicações foram desenvolvidas na ferramenta Visual Studio 2008 na linguagem C#.

Resultados

Até o presente momento, pudemos observar que realmente é possível a otimização do processo de levantamento epidemiológico, utilizando aplicações em dispositivos móveis. A linguagem XML se mostrou como uma ótima alternativa para o armazenamento dos dados, pois a posterior operabilidade destes para outros sistemas será de fácil implementação.
Ao final do projeto, concebemos uma versão digitalizada da ficha padrão da OMS que pode servir de porta de entrada para os dados obtidos através de um PDA, contendo todos os campos obrigatórios para geração de relatórios finais por uma solução desktop e que atenda todas as necessidades que o levantamento apresente. Com a solução embarcada agora é possível fazer uma consistência dos dados obtidos, pois o anotador não conseguirá preencher a ficha de forma equivocada, preenchendo com códigos inexistentes ou inválidos. Todo o processo de transferência dos dados foi padronizado com XML Schemas.
Este sistema poderá ser estendido para o setor público tendo em vista seu baixo custo e confiabilidade para levantamentos da situação particular de cada município assim como acompanhamento de programas de saúde bucal. Sendo então indicado não só para o uso ocasional em pesquisas como também para utilização de rotina nos levantamentos dos órgãos de saúde dos municípios, estados e da federação.
Durante os testes feitos com cirurgiões-dentistas e anotadores o novo método de obtenção de dados mostrou-se tão eficiente quanto o antigo, porém no momento da obtenção dos resultados a diminuição do tempo e confiabilidade, mostrou-se sem dúvidas superior.
Discussão e Conclusões

No mundo de hoje, a confiabilidade das informações que a tecnologia nos proporciona faz com que se substitua o papel de celulose por um “papel virtual”, em que tudo o que se quer armazenar é feito de maneira segura e de fácil organização. O preenchimento manual da ficha dá margem a erros de digitação que são muito comuns. Os erros variam de 0,2% a 2% dos exames, revelados por meio da digitação dos formulários por dois digitadores e feita a comparação entre os mesmos.
É sobre esse pensamento que este projeto é baseado: facilitar o processamento e análise das informações, o armazenamento destas e a alteração de possíveis erros no preenchimento da ficha. Uma solução com as principais formas de informações a serem processadas foi desenvolvida, mas deixando o código aberto para eventuais customizações. Este projeto pretende tornar prática a obtenção de resultados.
O intuito não é apenas agilizar a obtenção de resultados processáveis, mas também elaboramos uma solução que qualquer tipo de usuário possa utilizar, deste que seja feito um treinamento inicial com o anotador para a familiarização do mesmo com os códigos do padrão. É primordial que o desenvolvimento de novas tecnologias móveis leve em consideração a inclusão de qualquer perfil de usuário neste novo contexto.
Outro ponto considerável neste projeto é a utilização de XML Schemas para padronização das estruturas de dados. Isso garante uma grande interoperabilidade ao projeto, podendo ser facilmente adequado a diversas plataformas.

Referências

1 WATT, R. G. Strategies and approaches in oral disease prevention and health promotion. Bull World Health Organ. 2005 Set;83(9):711-8.

2 World Health Organization. Oral health surveys: basic methods. 4 ed. Geneva: ORH/EPID, 1997.

3 Oliveira AGRC, Unfer B, Costa ICC, Arcieri RM, Guimarães LOC, Saliba NA. Levantamentos epidemiológicos em saúde bucal: análise da metodologia proposta pela organização mundial da saúde. Rev. Bras. Epid. Internet 1998 citado em 2008 Jan 20. Disponível em http://paginas.terra.com.br/saude/angelonline/artigos/art_epid/metoms.pdf

4 Oliveira AGRC. Criação para bancos de dados. In: Peres MA, Antunes JL. Epidemiologia em saúde bucal. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1996. p. 398-408. No prelo.

5 Lee V, Schell R, Schneider H. Aplicações móveis: arquitetura, projeto e desenvolvimento. São Paulo: Pearson Makron Books, 2005.

6 Daum B. Modelagem de objetos de negócio com XML: abordagem com base em XML Schema. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2004.

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